A Fantastica fábula da moça do saco de açucar
É uma dessas histórias que acontecem de maneira tão irreal que só dá para acreditar quando contada como se fosse uma farsa. Pois foi assim, num inverno “porteño” atípico, mas tão fora do comum que nevava em Buenos Aires após oitenta e nove anos. Foi um fenômeno tão surpreendente; inesperadamente lindo, tornando o cenário fantasticamente inspirador e assustador quanto a trama que se a sucedeu naqueles meses.
Era uma noite em que a temperatura chegou a fazer 20° negativos, e era mais frio ainda naquele quarto tão grande e vazio, apenas com um indivíduo, “y su inseparable equipo de mate”. Já havia terminado sua erva mate, e não havia mais nada para esquentar o corpo a não ser a água quente da garrafa térmica. O queixo já mexia involuntariamente. Então, neste momento ele se lembrou de um pacote de café que um amigo havia trazido do Brasil. Nunca havia sido tocado, café era uma bebida impensável, depois de como foi descrito seu sabor por um velhinho correntino ─ O café é como uma paixão, você o coloca numa xícara, e ele está tão quente que não dá coragem para levá-lo a boca. Conforme ele vai esfriando se consegue bebericar, mas o degustador ainda toma muito cuidado para não queimar a língua. Chega uma hora que se descobre que deve ir apreciando devagar, esperando que se diminua a temperatura, só que passa, e acontece muitas vezes de se esquecê-lo em cima da mesa e ele esfriar demasiadamente, tornando aquela bebida de sabor amargo tão especial em um liquido preto, gelado e intragável. Daí, não resta mais nada a fazer que jogá-lo fora e substituir por um novo. Diante disso era impensável provar dele, contudo naquela noite quase glacial não havia outra escolha. Logo, começou uma noite de paixão sem igual. Muito esperto (Este indivíduo qual me pediu para não revelar o seu nome) não deixava nunca esfriar sua nova bebida sagrada. Por a madrugada foram quase dois litros de café, quando começou a manhã, estava tão animado e feliz, que pôs em “su termo” mais um litro de café e saiu correndo e dançando e cantando e gerundiando e conectando pelas ruas de Almagro. Andou, andou até que cruzou a sua frente um pacote de açúcar. Os seus olhos foram diretamente naquele embrulho e em sua cabeça surgiu a idéia mais genial de todas que ele já teve desde que descobriu a cafeína: misturar açúcar e café. Para ele seria a materialização do ying-yang, a união perfeita entre opostos, e isso iria transcender o sabor do que ele chamava de paixão. No entanto, naquele fado havia mãos o prendendo, e nessas mãos haviam braços que davam num tronco e sobre este tronco havia uma cabeça. E essa cabeça e esse braço e esse tronco e essa açúcar, pertenciam a uma mulher. Ele não se conteve e eufórico, mau pensou e saiu dizendo para a moça se ela poderia dar uma pouco da sua candura para adoçar sua paixão. Ela, então fez a mais esperada expressão de desprezo misturada com “o que?”, com uma pitadinha de medo, e um dedo de “que estúpido mais engraçadinho”. Ele, ao perceber que formulado mal sua frase. Explicou a história que ouvira do velho correntino. Mas ainda assim muito eufórico. Logicamente, a moça se desviou dele e disse com um sotaque pouco argentino. ─ “!drogadicto! No me jodas, o llamo a la policia!”. Assim, ela se foi correndo. E ele estático de tristeza, ficou ali na rua e sem entender nada abriu sua garrafa, sentou num banco, e ficou recordando da inconsistência daquela cena que acabara de passar. Lembrou então daquela mão que segurava o tão desejado saco de açúcar. Deu-se conta que havia entrelaçando seu ouro branco mãos tão preciosas quanto. E preso a estas mãos haviam braços maravilhosos cobertos por mangas longas, e ao final daqueles braços deduziu que havia um tronco e esse tronco possuiria um colo lindo. Pois ela havia um sorriso de desespero típico de mulher bonita, daquelas que são famosas no bairro e são vitimas de aplausos quando saem de casa. No final ele lembrou do sotaque de gringa que ela tinha.
Passou-se dois meses dessa história estúpida e incoerente. Que seria menos esdrúxula se ela terminasse assim, como um dia corriqueiro na vida de uma pessoa sozinha. Mas tratando de uma trama latina não poderia acabar desse jeito. Foi então que numa noite de chacarera com a primavera nos dentes eles se reencontram, assim, ao acaso. Nenhum dos dois lembrava do ocorrido. Se conheceram numa noite ela era uma espanhola que estava estudando as danças folclóricas argentinas; saíram noutro dia. Ele, rapaz pobre do interior que foi a capital para estudar na Universidade. Manteram-se em contato. Um dia ele lembrou da vez em que se embriagara de café. E pelo interfone do prédio dela ele repetiu as mesmas coisas que havia dito naquelas circunstância. Ela riu após associar as idéias. Eles saíram para tomar café e depois desse dia se apaixonaram perdidamente, a levou para morar com ele. Era um casal daqueles intensos, dois loucos, pseudo-artistas, meio de esquerda meio intelectuais e extremamente soberbos. Brigavam por poesia, compondo músicas ou escreviam artigos filosóficos para explicar os ciúmes um do outro, faziam metas e planejamentos com direito a gráficos, de modos para o amor durar para sempre. Mas houve uma vez que ele acordou e disse aquela tão famosa frase: vou comprar cigarro na padaria e já volto. Como era de se esperar ele não voltou, deixando-a em seu apartamento, que não havia moveis, só um colchão jogado no centro da sala. E ela por motivos óbvios entrou em desespero. Depois de três dias aparece uma notificação de despejo. Foi um grande choque, ela havia vendido seu apartamento e dividido o dinheiro com ele, agora não tinha mais nada. quis desistir de tudo. Pegou suas coisas e foi para o norte, cruzou a fronteira e mais nove estados até parar em Salvador da Bahia, onde tinha uma irmã.
Passou um mês e ela decidiu ir para o Rio de Janeiro. E então, como já havia dito da inviabilidade de crer nesta história. Ela (que me jurou de morte se revelasse o nome dela) encontrou com ele num bar de chorinho no centro da cidade. Ele tocava violão sete cordas no grupo que se apresentava aquela noite, era conhecido pelo apelido mas original que qualquer argentino poderia ter: Argentino, com variações como El Argentino e Maradona. Quando parou de tocar, ela vai em direção a ele e o cumprimenta com um hola. Quando percebe quem é vira rapidamente e responde a saudação naturalmente, e explica sem esperar perguntas, que haviam parado de exportar a marca de tabaco cujo preferia ele, e que o único lugar que ainda tinha era lá, no RJ, e como ele estava sentindo falta de café brasileiro, decidiu por pegar um avião e ir para o Brasil. Disse que não avisou por que ao desembarcar na cidade maravilhosa fora assaltado e levaram seu celular. E como já havia dito que seria uma história qualquer se ela não acreditasse nele e visse que ele era apenas um grande charlatão. Mas como é uma história de um amor hispânico digno de uma novela de sucesso na Telefe, ela disse que não importava e daí começou a dizer coisas bonitas usando metáforas com a influência dos astros na atração dos corpos, passearam pelas ruas e pararam num bistrô onde tomaram três xícaras e meia de café conversaram como o ocorrido fosse algo corriqueiro e 3mil quilômetros se faz em vinte minutos andando. Mas a máscara que estava tudo bem, logo foi retirada e começaram a discutir. Daí ele expôs todos seus medos, cuspiu nela todos seus defeitos, ela chorou, arrependido paga e sai deixando a quarta xícara de café pela metade. Levou-a para o seu apartamento na zona norte do RJ. Este estava bem decorado, com um ar de lar. Explicou que fugiu pois havia conhecido uma carioca que o “volvió loco”, ficou completamente perdido, e por isso o havia feito. Casaram ao chegarem no Brasil, mas ela morreu depois de três meses e fazia um mês que vivia como um viúvo no rio de janeiro. Requentou o café que havia no bule. Ela estranhou e perguntou por que ele estava fazendo aquilo, pois café requentado tinha um gosto pior do que o frio. Assim que ele explicou que era um costume do país. A moça ri e volta a chorar. E fala que se lembrou da metáfora do velho correntino, e o questionou se poderiam fazer o mesmo entre eles: requentarem-se. Ele ri e sente seu peito esquentar, se aproxima dela e a beija. Passaram o final de semana discutindo sobre relativismo e pós-modernismo, entre mate, café e sexo. Quando ele acordou na segunda- feira. Estava mais apaixonado que nunca, mas ela já não estava ao lado dele. Havia ali na mesa de centro da sala, um clássico bilhete, em que ela dizia apenas a frases No seré yo que viveré de paciones recalentadas.
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