Tradições cariocas

8 de junho de 2017 Deixe um comentário

São às 8:48 da manhã. Na minha frente cerca de 50 metros, o terminal das barcas. – Em dez minutos sai a próxima – penso. Dou o último trago no cigarro, pego a guimba com as pontas dos dedos e com um peteleco tento acertá-la entre as gretas da galeria pluvial; erro. Aproxima-se de mim um sujeito de colete, óculos escuros e boné. Logo pensei se tratar de alguma pesquisa, ou de alguém coletando assinatura para alguma causa Greenpeace e até mesmo com algum contando um causo trágico no intuito de me comover e pedir algumas moedas. Desviei o olhar e tentei desvencilhar-me daquele bom dia que já lhe saia da boca. Mas já era tarde. Sem querer, lhe olho a face; sem me dar conta, ouço seu nome e percebo que se tratava de um funcionário da Prefeitura.

Bom dia. Sou Jorge esse é o Guarda Municipal Sodré (que eu só me dou conta da existência quando Jorge aponta para ele), sou fiscal do programa Lixo Zero, Seu nome?

Ibrahim. – Ibrahim do que? – Haddad.

Ibrahim, vi que você jogou a guimba do cigarro no chão. Queira por, gentileza me fornecer seu CPF para o guarda Sodré, pra ele te notificar.

Putz, não ando com documentos – ponho a mão nos bolsos no intuito de demonstrar que não tinha nada. Então Jorge diz:

Tu não tem o número de cabeça não, Ibrahim? – Balanço a cabeça negativamente e o fiscal me olha incrédulo e pergunta – E se passa alguma coisa contigo, meu camarada? Vê bem se você não tem, se não você vai ter que acompanhar o Sodré até a delegacia e vamos ter que fazer um levantamento do senhor. Tem certeza que o senhor não tá com o CPF ai, Ibrahim?

Se me acontecer alguma coisa , é porque alguma coisa tinha que acontecer, não tenho como em ir contra a vontade divina. Além disso, sou do interior e só estou de passagem por aqui, não lembrava dessa lei, pois não ando muito por aqui. Peço-lhes desculpas, mas podemos resolver isso. Eu posso pegar a guimba e jogar no lixo ali atrás do senhor, daí mantemos a cidade limpa.

Aponto a lixeira laranja com o dedo e os dois viram o corpo, sem dar ouvidos a minha solução prática, o vedor parecia mais preocupado em me ensinar a importância de portar documentos ao andar pela rua. Já impaciente com minha apatia me diz que teriam que me levar para a delegacia, insisto no caminho mais simples:

Oh meu amigo, foi automático, na minha cidade quase não tem lixeiras, todo mundo joga lixo no chão. Fica difícil se adaptar a essa nova lei municipal quando não se está sempre por aqui. – O Lixo zero já tem quatro anos, senhor- me corrige.

Vê? Vê como eu não frequento a cidade? Já fazem quatro anos e eu tomo conhecimento agora… – Mas ela vale e pra todo mundo, até pra estrangeiros. Tenta me cercar o inspetor.

Companheiros -nessa hora o tom da minha fala se põe parnasiano- peço-lhes desculpas pelo meu equivoco. Assumo que estou errado, mas eu vou ali, recolho a guimba do chão e ponho na lixeira, sem necessidade de delegacia, de notificação e ainda assim a cidade fica limpa. Me levar a delegacia vai fazer vocês perderem tempo, eu vou perder tempo e ninguém vai sair ganhando. Dessa maneira que eu to propondo, todo mundo fica feliz.

Jorge me olha de soslaio e já impaciente fala para eu ir embora.

Ibrahim, Se adianta, se adianta, segue seu rumo. Ó, mas não anda sem documento não, viu? Por favor.

Desculpe-me senhor, não acontecerá novamente. Bom dia.

Caminho em direção a roleta, pego meu Riocard e entro na estação das barcas certo que as tradições continuam firmes no rio, a lei do desenrolo prevalece ao processo civilizatório e a guimba continuava ao lado do galeria pluvial.

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Dos Nossos Ritmos

15 de agosto de 2016 Deixe um comentário

Gosto do jeito que nos portamos

Nessa estética de cinema mudo,

Dezoito quadros por segundo e

Tudo parece tão rápido,

Ao passo

Que

Na realidade

Está tudo

De ma sia do len to

Emnossaperfeitasincronicidade

Ao ritmo de um piano

improvisado

E intenso

Penso

Nos nossos gestos rústicos

Na maneira incandescente que fica nossas peles

A cada toque leve

Simpleseinstantaneamente

E que por mais que em nossas noites escuras

Eu não te enxergue

É impossível não te sentir

Pois já tenho seu aroma incrustado em mim

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¡Ay de mi, changuita!

28 de maio de 2016 Deixe um comentário

¡Ay de mi, changuita!
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¡Ay de mi, changuita!
¿Y si te enterás que
Por esa prosa dolorida
No nos pagan un peso?

Ya se fue la guita….
Sin embargo sigo con mis coplas
Mismo que ellas no me pagan
Ni la comida

Pero no veo otra salida
Sino seguir escribiendo
la misma fábula mentirosa
del criollo y su bella india.

¡Ay de mi… si te enterás, negra!
¡Ay…y si te cuento, changuita!
Que no hago nada más
Que convertirte en un cuento

Es que…
Esas cosas, mi amor
A veces suelen venir muy mal explicadas
Y te aseguro, que tu dolor
No es el motivo de mis carcajadas

Te lo explico que este desatino
es el único destino
de ese payador
Que estar harto
De que su lirismo
No tenga ningún valor

Sin embargo
Me hago aquél tipo versado
Pa’que en otro la’o
El otro lado del espejo
Nadie vea mi verdadera
Y tan fea
Poesía vivida

La Mala alegría
de esa prosa cautiva
Engrilla
Engaña
Empaña…

Pero bueno,
Al menos me mantengo
con el puchero gordo.
¡Mas bien, che!
Esas moscas me
están llevando
los choclos.

La vida chueca
De este poeta trucho
Se quema más rápido
Que el pucho
Que lleva en la mano
Y sé que a muchos les molesta su “y”
¡Que raro que te suena boludo!
Pero este ya es otro balurdo,
Ahora es la plasta
De ser un argentino
De buena alhaja
Que ya está re lejos
De aquella tierra tan querida
Del amor y gomia

Y allí
Era tanto canto
Tanto, tanto tango
Que ya me lo han llevado
Mis engaños
Y por mas aturdido que esté yo
Por más que sea malogrado
En las cosas del amor
Me levanto
Y me sigo
Intentando
Espiantar a esta racha fulera
Y  al menos
A este intento me lo saco de bueno

Pero…

Es que…

A veces la mano
me viene re mal barajada,
Y esa vida que nos llevamos ahora
es más confusa
que mi pampa milongada

Y se te parece que todo esto
Está repleto de vacías palabras,
A vos te cuento un secreto:
¡De la vida no sabés nada!

Una historia es una hazaña
Las palabras no tienen compromiso
Sino con ellas mismas.

Me convierto en fábula
Pues esta es mi guadaña
Pa morfar a cada yorno.
Y en el cuore cargo tanta
Tristeza,
Que te digo
mismo que no esté
lo más seguro de mis
incertidumbres.

En realidad
La verdad
No existe

En realidad

La verdad

No existe.

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Fragmento

3 de maio de 2016 Deixe um comentário

num canto mudo
o mundo muda

A musica para
e a dança continua

Num tango todo
Sentimento é imenso

Quando se faz cantarolar
A dor banal é algo
incrivelmente atraente

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Em Triênios

30 de abril de 2016 Deixe um comentário

A sensação de ontem é igual a de hoje,
De não saber como pisar no chão.
Era como fosse o primeiro beijo
a primeira emoção,
Mas depois que acalma o turbilhão
Parece que se fez tudo errado,
se abriu de mais, demonstrou muito afeto

– daí, ela vai embora assustada,
porque o mundo está louco e
ninguém acredita
mais nessas coisas.
(…)

Era como se tudo desse errado.
Um abraço e o gelo derreteu,
todos meus planos,
todas as personas
que compunham meu eu
se perdessem como
formigas quando se passa o dedo
em seu caminho

Não tem astúcia
nem cara de
velho sábio
que mascare
que controle

(…)

É como um movimento que acontece
no universo em triênios,
que devido a uma conjuntura
específica do alinhamento dos astros,
inexplicavelmente, aqueles dois
se encontram em um não-lugar
e são felizes e leves.

(…)

enfim,
ando preferindo
te dar um beijo
ao lhe
dar um texto

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Palavras não ditas.

27 de maio de 2013 Deixe um comentário

Será que eu digo

Que esse beijo não

Está me parecendo

O primeiro, se não

O milésimo?

Um beijo com gosto de regresso, cheio

de saudades.

Eu poderia jurar

Que sentia falta

Dos teus braços

Passando  vagarosamente

Pelo meu corpo e

Sem que eu percebesse

Se converterem em abraços.

Que me envolvem,

Me revolvem e

Me provam

Que

Eu esperava por isso

O  aconchego de estar envolto

De um corpo já tocado

(Mas quando?).

Em todo kardecismo,

Filosofia oriental ou

Toda essa conversa sobre o

Karma e kudalini

Eu poderia duvidar

Mas eu poderia ter certeza

Que esses olhos já

me fitaram antes,

milhares de vezes antes.

Eu prefiro nao acreditar em nada

Afogar-me nesse sentimento e

Perder-me no carinho

Que emite seu corpo.

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Brainstorm

20 de maio de 2013 Deixe um comentário

Preciso agarrar a primeira palavra que consiga enxergar nesse emaranhado de letras que saltitam na minha cabeça;  aprisioná-la num papel, de modo que todas as outras viessem sozinhas  unirem-se a fim de encontrar uma lógica do porquê a primeira foi presa. Dessa maneira, a prisão da letra se transforma na liberdade das palavras.

 -(Mas a tarefa se torna árdua com os mosquitos, muitos deles, necessitando sangue para  dar início ao ciclo gonotrófico. Dizem que só as fêmeas picam. – E por que saber disso seria-me útil nessas circunstâncias?-  de  qualquer maneira gostaria que nenhum mosquito viesse se alimentar de mim e  deixasse me concentrar nessa tarefa que me propus.
Os mosquitos tiram minha atenção do caderno. são as 18:30 e me percebo a beira de um rio que ao mesmo tempo é mar. O céu está metade azul acidentado como se fosse noite. Na outra metade, o sol quadrado  vai se pondo, se metendo dentro da agua  deixando todo horizonte laranja. E é impossível ver a outra margem do rio.
A cada tapa no braço, na cabeça e nas costas percebo os carros ruidosos passando na estrada a uns cem metros atrás de mim. O farol luta contra a lua para ver quem vai iluminar mais o estuário. Do outro lado os velhos pescadores guardam suas coisas antes que a noite caia por completo. Mas ao fundo, um casal está enroscado como se estivera praticando ioga. Mal podem esperar para que o sol se afunde na agua do rio.)
Entre as mordidas, a coceira e a iminente escuridão me vem a primeira letra e junto dela seguem mais sete, como a existência de uma não fizesse sentido sozinha.- E-s-c-r-e-v-e-r. Espanto-me. Tanta desconstrução desenfreada que desaprendi o uso das palavras. as vozes que haviam dentro de mim  parecem que foram silenciadas por completo. Creio que me tornei um mero descritor,  Atualmente vejo mais poesia no cheiro de madeira mofada do outono, sinto muito mais beleza em estar vivo e todos os dissabores que podem ocasionar a liberdade.
Estar vivo e sentir todas as dores desse feito. A liberdade tal como Sartre descrevia em seus romances. Das mãos gretadas por facas afiadas que me talham historias tão lindas, tão complexas que me fica a duvida se sou incapaz descreve-las ou é egoísmo meu não conta-las. Há a grande possibilidade de que por fim entender que la vida de uno no interesa a nadie sino a el mismo. Descobri como se abria a porta do poço que criei para cair. Uma porta bem fechada também criada por mim. Acho que encontrei por fim, um significado na loucura.
Mas loucura maior é se prestar a sentar a beira do Rio da Prata, em um fim de tarde pensando que teria inspiração para escrever. O que consegui até agora foi alimentar os mosquitos e deixar o casal a 30 metros de mim constrangido e impaciente com minha presença. A noite já se fez escura. Nem a lua e nem o farol ilumina o meu caderno. Mesmo assim persisto. Os mosquitos já deixaram minha pele anestesiada e não me incomodam mais. Não vejo mais as letras se pintarem no caderno. Elas começam a se por em um plano mais material. Da minha cabeça se vão a minha garganta. Engasgo-me com elas, tranco os dentes para que elas não saiam e me formem a palavra saudade…
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